Um bocadito para lá das aparências
Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigotski - 9
2.2 As raízes do Pensamento e da Linguagem Segundo Vigostki   

     Vigotski estabelece logo de início que pensamento e fala não são complementares, e que geneticamente seguem evoluções diferentes, embora a uma determinada altura tendam a complementar-se. Deste modo, pensamento e linguagem serão fenómenos distintos. Para o fundamentar, Vigotski recorre aos estudos de Koeler e Yerkes, que realizaram experiências com animais na busca por uma explicação filogenética dos fenómenos inerentes ao desenvolvimento. Nas experiências famosas que Koehler realizou com chimpanzés, ficou bem claro que estes possuíam uma inteligência bem desenvolvida, embora em nada comparável à humana. Na realidade, os chimpanzés chegaram inclusive mostrar capacidades de abstracção na resolução de novos problemas, ou seja - recorrendo a utensílios que transcendem o que a natureza oferece espontâneamente. Conforme observações, os chimpanzés mostraram ser capazes de, à semelhança do ser humano, construir mentalmente estados de coisas que transcendem o mundo natural – os chimpanzés foram capazes de encaixar varas umas nas outras de modo a poder alcançar bananas fora do seu alcance físico. Na continuação das experiências, agora relativamente à fala, conclui-se que também os chimpanzés (até porque fisiologicamente são as criaturas mais parecidas com o ser humano) usam uma linguagem fonética, embora muito rudimentar e pouco desenvolvida; nada que se assemelhe ao fenómeno linguístico que caracteriza o ser humano. Na realidade, a linguagem utilizada pelos símios, apenas traduz a expressividade de emoções básicas instintivas. Nos animais irracionais, sem dúvida que podemos encontrar determinadas formas de expressividade articulada através de sons. O que os animais não podem realizar através da linguagem é a ideação, ou seja, a retenção de símbolos para lá dos quadros referenciais concretos. Já no feito incrível do macaco de Koelher esse facto veio à tona, desta feita ao nível do pensamento a-linguístico – fora do quadro geral do referencial, ou seja, sem as bananas ao alcance da visão, embora na presença das varas, o chimpanzé nunca foi capaz de resolver o problema que tão bem superava na presença de todas as variáveis em simultâneo. Deste modo, podemos concluir que as capacidades que os seres humanos evidenciam ao nível da linguagem se devem à sua capacidade de retenção dos símbolos, e consequentemente à formação de conceitos. Os animais certamente que conseguem emitir um sinal vocal na presença do perigo, mas esse sinal vocal não traduz qualquer intenção de comunicar o perigo, é antes uma exteriorização do seu instinto básico de temor e pavor. A capacidade de comunicar experiências, tanto no sentido de informar, como no sentido de manipular, nunca foi observada em qualquer animal. Não fora assim, e a experiência adquirida na manipulação do instrumento “vara”, poderia ser comunicada aos restantes elementos do grupo, ou até mesmo às gerações vindouras. Filogeneticamente podemos claramente determinar que existe um desenvolvimento de pensamento claramente pré-linguístico, já que as vocalizações das espécies inferiores não se podem comparar a reacções intelectuais, isto é, com o pensamento.


publicado por Transbordices às 17:35
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