Um bocadito para lá das aparências
Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigotski - 6

(...) Enquadramento Geral - 1.1 Breve Incursão Pela História da Psicologia (Continuação...)


      Podemos dizer que a psicologia começou verdadeiramente com a criação do laboratório experimental de Wundt. Ainda muito apegado ao estudo das condições fisiológicas na sua relação com os estados psíquicos, desenvolveria estudos relacionados com a visão, a audição, o tacto, o gosto (paladar), o sentido de tempo, a percepção, o tempo de reacção, a atenção. Estamos ainda claramente nos domínios da causalidade psico-física, ou seja, na procura por uma fundamentação mecanicista, universal e metódica das condições de possibilidade das reacções sensório-motoras da psique humana. A psicologia de Wundt procurava decompor a mente nos seus objectos mais simples – as sensações.


      Posteriormente, pela mão de Pavlov, a psicologia sofreria uma inflexão que daria mais tarde origem ao comportamentalismo ou behaviorismo. Os estudos de Pavlov com animais no domínio da reflexologia, criaram as condições para o desenvolvimento dos estudos de Watson, pai do comportamentalismo. O comportamentalismo caracteriza-se pelo abandono dos métodos introspectivos em prol da observação controlada, e sobretudo pela importância dada aos factores relacionais no desenvolvimento do comportamento humano. Watson acreditava piamente no poder das referências extrínsecas como o principal factor de educabilidade e desenvolvimento. Dedicou-se largamente às questões da educação, e introduziu na psicologia a ideia de primeira infância como fase decisiva para a formação do temperamento, ideia que aliás é muito querida a Freud e à psicanálise. Para Watson, o estudo da psicologia resumia-se à observação das respostas perante determinados estímulos induzidos. Com Watson podemos também invocar a expressão “condicionamento de temperamento”, não fosse um sucessor de Pavlov e da reflexologia. Segundo Watson, o que nós fazemos é o que o meio nos faz fazer. É célebre a sua frase – “Dêem-me uma dúzia de crianças sadias, bem constituídas e a espécie de mundo que preciso para as educar, e eu garanto que, tomando qualquer uma delas, ao acaso, prepará-la-ei para se tornar um especialista que eu seleccione (…)”. A teoria do comportamento haveria de evoluir futuramente com autores como Bandura, Hull, Thorndike, Tolman ou Skinner. Não podemos deixar de referir contudo, que o behaviorismo falha ao deparar-se com determinadas estruturas da psique humana que não podem ser, de modo algum, fundamentadas exclusivamente a partir da interacção com o meio, como no caso dos sentimentos, das emoções, do gosto, da identidade, e até mesmo das estruturas que possibilitam a aprendizagem em geral. Relativamente a estas questões, Piaget haveria de alcançar uma solução mediadora. O meio terá a sua importância, embora o indivíduo possua estruturas a priori que possibilitam o conflito cognitivo originado a partir da interacção com o mundo. Já Vigotski considera que Piaget dá pouca relevância ao papel fundamental que a interacção entre os indivíduos representa para o conflito cognitivo de superação na dialéctica das estruturas do desenvolvimento. Ao contrário de Piaget, radica precisamente nas relações inter-pessoais e no enraizamento social a condição de possibilidade para os saltos qualitativos no processo da aprendizagem. Dedicaremos às teses de Vigotski uma atenção mais aprofundada. Voltando ainda a Piaget e à emergência do cognotivismo construtivista, gostaríamos de realçar o carácter mais liberal das teorias de Piaget relativamente às de Watson. Modo geral, o que para os comportamentalistas se resume a uma passividade do sujeito cognoscente, em Piaget, assume um estatuto activo – Piaget refere um individuo plenamente intrínseco ao seu papel mediador, em que a subjectividade representa o papel predominante no processo de desenvolvimento, ao contrário do que pretenderiam os behavioristas, como vimos atrás. Já Vigotski complementariza estes dois pólos, do modo como veremos daqui em diante.



publicado por Transbordices às 17:02
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