Um bocadito para lá das aparências
Sexta-feira, 6 de Julho de 2007
Privacidade

    Recentes notícias relacionadas com as imagens escaldantes da Cicarelli levantaram celeuma relativamente ao direito à privacidade. Dizem os entendidos que se estão a abrir precedentes inéditos e renovadores da ordem habitual do tratamento jurídico destas ocorrências. Este problema concerne cada um de nós e não apenas as figuras públicas, embora sejam estas últimas que têm que lidar diariamente com o problema. Será que a fama deve forçosamente acarretar ter que lidar com exércitos de fotógrafos prontos a captar os momentos mais íntimos, e pior ainda, ver a vida privada exposta nas revistas cor-de-rosa e jornais contra a vontade a expressa dos pobres protagonistas forçados? Não consigo compreender o mecanismo que leva uma revista a poder publicar artigos e fotografias embaraçosas de terceiros sem autorização expressa e ainda ter o direito de ficar impune por isso.

    Será que o caso Cicarelli ainda vai trazer mais impunidade à classe? Estaremos perante o contra ataque derradeiro da classe jornalística que finalmente vai alcançar a impunidade ilimitada no exercício das suas funções? Note-se que até mesmo a polícia se debate muitas vezes com entraves legais que parecem não afectar minimamente a classe jornalística quando se decidem a investigar. Eles penetram, escondem-se, armadilham, escutam, enganam, invadem, etc, etc - e isto tudo sem mandatos de busca. Isto significa que qualquer cidadão pode ter a sua vida devassada só porque um jornalista suspeita que pode ali estar uma boa oportunidade para assegurar o ganha pão. Há ou não há diferenças entre noticiar e fabricar notícias? A primeira implica descrever acontecimentos e factos ocorridos, a segunda implica uma investigação. Quanto a esta segunda, cria-se uma cumplicidade entre o papel social que compete às forças da lei e ordem e o que compete à classe da informação. Até que ponto será admissível que se misturem as duas?

    Considero a privacidade um direito inalienável. Ainda posso entender que no espaço público se aceitem determinadas liberdades informativas. No espaço público compete a cada um de nós resguardar-se - em ambos os sentidos, no que respeita a si mesmo e no que respeita terceiros. É por essa razão que não se devem fazer as necessidades em qualquer lado, pela simples razão que isso incomoda os outros. Quem protagoniza acções embaraçosas em público está a tornar-se notícia. A inversa também se aplica claro (quem protagoniza acções probas e dignas). Mas quando se trata da esfera privada já é diferente, pelo menos devia ser, devia continuar a ser. Se até mesmo a polícia tem que ter mandatos de busca e autorizações expressas para invadir o espaço privado dos suspeitos, porque carga de água é que continuamos a ver publicadas fotografias tiradas sem a autorização expressa dos visados no seu próprio espaço privado, dentro de suas casas?


    Por este andar corre-se o risco de vir a apanhar uma mini-câmara escondida sob a superfície da águinha da sanita, na esperança fotográfica de algum alienado apanhar alguma parte mais íntima, ou algum acto mais recatado... A salvo duma bela feijoada claro, pôrra...





publicado por Transbordices às 18:00
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