Um bocadito para lá das aparências
Terça-feira, 3 de Julho de 2007
A Matança

Um passarinho estava pousado no meio da estrada. Fui forçado a travar para não o colher. Enquanto observava o seu bater de asas aflito numa fuga apertada, fui acometido por memórias pesarosas e confrangedoras, recordações antigas e adormecidas que afloraram de rompante.


Por altura das primeiras férias daquele que foi meu primeiro emprego, faz já largos anos, resolvi comprar uma espingarda pressão de ar. Como planeara passar as férias na quinta da minha Avó, sita num local rodeado por natureza luxuriante e ainda por desbravar, antevi longos passeios pelas matas circundantes, de espingarda aos ombros e calçado com botas robustas. Na verdade, as minhas intenções na altura não passavam da prática de uns tiros ao alvo – nunca tivera grande predilecção pela caça, e uma das características que sempre reconheci em mim, desde tenra idade, prende-se com um profundo respeito pela vida.


Lembro ainda hoje uma das minhas primeiras tiradas linguísticas, nem sei bem com que idade, mas bem cedo presumo. É das primeiras frases que lembro ter proferido, um dos primeiros raciocínios complexos que formulei – visando a minha mãe comentei - “não gosto de fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam a mim”. A que propósito ou em que contexto disse tal coisa já não me recordo, mas ela também não lhe deu grande relevância – “coisas de criança”. Na ocasião das férias que descrevo foi convicção que caiu em saco roto, frase inconsequente. Matei sem razão aparente, só pelo acto gratuito da matança em si, talvez para provar a mim próprio que era capaz.


Afinei bem a mira usando latas e outros objectos semelhantes. A espingarda de ar comprimido era dotada duma força invulgar. Descobri que a minha perícia como atirador não era má – conseguia atingir alvos a distâncias consideráveis para aquele tipo de arma, inclusive com recurso a descontos derivados da trajectória descendente pela perda da velocidade e da força. Naquela zona as aves proliferavam em bandos. Por diversas vezes tive passarinhos sob a mira, o dedo quase a premir o gatilho, mas no último momento acabava por baixar o cano - com um torcer de lábios.


Então chegou o dia da matança. Recordo-o agora como se tivesse sido ontem. Reparei no pássaro que não passava de um pequeno ponto no meu olhar. A distância era considerável – talvez esse facto me tivesse levado a premir o gatilho, nunca pensei que fosse acertar. Fixei o alvo e subi um pouco o ponto de mira. O vento andava por outras paragens. Àquela distância nem dava para perceber que espécie de ave era. Apertei o gatilho. Ouvi o estalo da descompressão da mola seguido pelo som do silvo do chumbo que cortava o ar. O silvo do ar cortado foi-se desvanecendo na distância. Passados dois segundo soou no ar o estrondo seco do impacto, e a ave caiu do alto da árvore, rodopiando sobre si mesma, no último alento de uma asa que tentava ainda ligar-se à vida. Onde caiu ficou inerte.


Ainda não tinham passado três segundos, quando das árvores circundantes voaram uns quantos pássaros e pousaram no local onde a minha presa jazia. Chilreavam aflitivamente. Não sei se seriam crias ou companheiros de bando. Mas um facto transparecia – sofriam a perda, tinham sido colhidos de surpresa por um destino cruel que infelizmente eu protagonizara. Nunca tivera conhecimento daquele tipo de comportamento personificado por aves, precisei de o viver para o descobrir. Ainda por cima, para intensificação dos meus pecados, aquelas aves nada tinham de comum.


Aproximei-me. O barulho das minhas botas que pisavam com força a terra endurecida pelo sol espantou os pássaros para as copas circundantes. À medida que me aproximava notei que a ave que jazia no solo era brilhante. A sua plumagem exibia matizes coloridos que não reconhecia. Quando lhe peguei fiquei siderado com a popa magnífica e as longas penas da plumagem do rabo. O tom que mais sobressaía era o amarelado, embora o verde e o vermelho dessem um retoque deslumbrante ao conjunto geral. Pousei a ave em cima duma pedra com as asas abertas e admirei a sua beleza durante largos minutos. Não reconhecia a espécie, nunca vira semelhante ave nas redondezas. E não se pode dizer que fosse completamente ignorante no assunto.


Procurei opiniões mais doutas no assunto. Entrei no café e dirigi-me ao Carlos. Mostrei-lhe o meu troféu. Esboçou uma expressão de horror e perguntou - “Para quê matar isso?”. Baixei os olhos e estiquei ligeiramente os lábios. Comuniquei-lhe o meu arrependimento. Arregalou os olhos quando lhe descrevi a aflição das crias. Também ele não sabia a que espécie aquela ave pertencia. Nunca tinha visto uma igual. Chamou um homem que bebia uma cerveja nas mesas do canto. Era um camponês da zona que conhecia bem a fauna local. Também ele ficou surpreendido com a minha presa. Nunca tinha visto. A ave circulou de mão em mão e ninguém foi capaz de a reconhecer. Episódio estranho. A única explicação plausível que encontrei reside numa hipotética falha migratória, num imponderável qualquer relacionado com um desvio das rotas habituais.


Quando resolvi ir embora o Carlos disse-me - “já que a mataste, ao menos frita e come”. Assim fiz,




publicado por Transbordices às 20:02
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De so12 a 2 de Fevereiro de 2008 às 02:05
Antes bateres contra um muro, espatifares o carro todo, um galo na cabeça do que uma matança dessas!! Depois disto foi a desgraça... veio pensamento cognitivo... só podia ser...


De Transbordices a 2 de Fevereiro de 2008 às 17:31
Mas a verdade é que a manutenção da vida se paga com a morte, essa é uma lei universal, incontestável? Mas por desporto nunca mais...


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