Um bocadito para lá das aparências
Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
O Casaco de Peles

Ela entrou, espampanante e artificial. A sua atitude denotava alheamento e desdém face aos demais, como se o mundo girasse em torno do seu umbigo, e nada do que estivesse 10 cm para lá dele lhe interessasse verdadeiramente. A postura típica dos que cultivam a irresponsabilidade, ao confundir o ideal dum hipotético “pensamento positivo”, tão na moda actualmente, com o alheamento face à realidade circundante. Há determinadas situações que não podem ser atiradas para trás das costas, por serem tão delicadas, e aquela senhora mostrava nos seus trejeitos, que por uma questão de comodidade, não teria o mínimo problema em aplicar a técnica do “pensamento positivo” só para não ter que se debruçar duas vezes sobre situações que pudessem afrontar os seus interesses pessoais - e o seu protagonismo.


No entanto, contrastando com o seu autismo, perdia-se em monólogos, dirigindo-se ora a uns, ora a outros, não se importando com os sinais de aparente enfado que a sua postura provocava nas gentes circundantes. Um verdadeiro furacão, digna de baptizar um ciclone. Não gostaria de ter que me debruçar sobre assuntos profundos se para tal precisasse de trocar algumas ideias com aquela senhora. Certamente que daria peixeirada e gritaria - não pela minha falta de paciência ou grosseria, mas pela sua falta de bom senso e poder de análise. Compreender e escutar não podem deixar de ser sinónimos, é um casamento que dá bons resultados.


As suas vestes espelhavam a sua personalidade – plasticidade, superficialidade, fingimento, engodo. Um longo casacão de peles, deixava antever pela altura dos joelhos uma saia que torneava pela barriga das pernas uns sapatos de salto alto com um tacão excessivamente pontiagudo.


E lá continuava ela, com os seus gestos bem medidos e as suas palavras mais entoadas que faladas, mais cantadas que pronunciadas, naquele tom de voz excessivamente elevado, que intimidava pelo seu timbre mais que pelo conteúdo das palavras. Aliás, um vozeirão daqueles, que embalava um chorrilho ininterrupto de palavras pronunciadas em catadupa, seria o suficiente para desconcentrar o mais hábil pensador, cortar pela raíz as veleidades de qualquer interlocutor mais perspicaz.


A atenção da senhora virava-se agora mais para um homenzito que a acompanhava. O Senhor mostrava sinais de atrapalhação, rolando os seus olhitos pequenos fugidiamente pelas pessoas circundantes, receando que alguém lê-se na sua expressão o acabrunhamento que lhe ia no espírito. No entanto, a sua fronte curta e sem cabelos não apresentava sinais de suor. O homem aparentava pouca presença de espírito, conformismo, assumia uma postura ausente, certamente produto de vários anos a lidar com aquela Senhora dominadora e manipuladora. Um pobre fantoche nas suas mãos, domado, conquistado, castrado...


Na realidade, agora que recordo o episódio, não posso deixar de sorrir com o pensamento que me aflora o espírito. Aquele tipo de Senhora faz-se sempre acompanhar por um Senhor que lhe faz de cabide. Um casaco de peles tão fino não pode ficar-se sem um bom cabide. Não é que a base de sustentação do cabide fosse por aí além, como já referi o senhor tinha uma testa curta, agora os suportes em si deveriam ser bem resistentes. Doutra forma, que cabide poderia resistir a um casaco de peles tão vistoso como aquele? Teria certamente que ser um cabide de qualidade.


Consigo também imaginar as constantes ausências da dita Senhora - “visitas à prima”, ou qualquer coisa assim...



publicado por Transbordices às 02:45
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1 comentário:
De semprevida a 18 de Maio de 2007 às 17:58
Nada melhor que um bom cabide recheado,que lhe assegura tudo o resto.


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