Um bocadito para lá das aparências
Domingo, 3 de Junho de 2007
A Figura

Como sempre, aquela figura deixava transparecer alguma indefinição. Algo nos contornos diluía-se, não percebia bem se por excesso se por defeito. Pensava se os outros teriam uma percepção idêntica da sua figura. Será que que a viam com melhor nitidez, ou seria um defeito seu? O que saltava à primeira vista era a arcada supra-ciliar, demasiado saída, ocultando o verde dos olhos por estarem sempre envoltos na sombra - no verão dava um certo jeito, mas na discoteca não, e como não era de muitas saídas... Por baixo dos olhos ensombrados, papos salientes, realçados por contornos escuros que davam um ar pouco saudável ao conjunto geral – ultimamente andava a dormir muito mal, e as dificuldades em adormecer eram agravadas por constantes despertares, vindo de pesadelos estranhos, que tinha depois dificuldades em recordar. Não tinha um sorriso fácil e sabia-o, facto que nem a a barba mal cuidada e sarapintada de branco ajudava a disfarçar. Faces macilentas e descoradas, cara estreita, ligeiramente recheada pelo toque da barba espessa. O rolo de barba espessa que costumava formar-se na linha do contorno da cara e que nunca conseguira controlar, deixava transparecer um pescoço delgado, vestido por uma gola demasiado larga que ainda o fazia parecer mais estreito. Os ombros eram um mistério, por vezes largos e possantes, outras vezes estreitos e frágeis – nunca tinha conseguido perceber esta dualidade, como era possível que o contorno dos seus ombros fosse tão ambíguo, mistérios da natureza que não são para serem desvendados. Lá força tinha, assim como altura, e os braços não eram demasiado estreitos nem musculados.


    Quando olhava para o contorno do cabelo marcado por restos secos de gel e ornado por um rabo de cavalo não demasiadamente comprido senti um movimento ágil...


    Era o meu gato preto, companheiro de longa data, que tem o hábito de saciar a sede no lavatório da casa-de-banho, e que habitualmente salta para as bordas da bacia num exercício complicado de equilibrismo, para seguidamente aguardar que eu abra a torneira para sorver a água em curtos golpes de língua... Desconfiava que já era mais vício que sede. Esqueci-me então por algum espaço de tempo da minha fraca figura...




publicado por Transbordices às 17:33
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