Um bocadito para lá das aparências
Sábado, 24 de Novembro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostski -22
(...) 4. A importância da escola para o desenvolvimento - conceitos espontâneos e conceitos científicos (continuação...)

     Segundo Vigostki, a optimização dos processos mentais na sua evolução para o conceito puro, será por um lado um trajecto gradual – será impossível um conceito ser simplesmente transmitido pelo professor ao aluno “de uma vez por todas” - e por outro, um trajecto que complementa intrinsecamente os conceitos científicos e os conceitos espontâneos. A aquisição dos conceitos terá que passar por uma maturação gradual que depende da interacção com o meio, embora centrado nas estruturas cognitivas do aluno. Ao contrário de Piaget - que defende a relação entre o conceito espontâneo e o conceito não-espontâneo como um conflito destinado a ser ganho pelo pensamento extrínseco dos adultos -  Vygotski defende que o desenvolvimento natural dos conceitos será essencialmente um processo unitário, e não um conflito entre formas de intelecto antagónicas e mutuamente exclusivas. Por sua vez e ao contrário de Piaget, Vigostki considera que os conceitos científicos e os conceitos espontâneos se complementam, ou seja, que fazem parte de um mesmo processo de desenvolvimento, interagindo e contribuindo mutuamente para o amadurecimento intelectual dos jovens formandos. No entanto, defende que o conceito induzido é claramente mais profícuo – o aprendizado geralmente precede o desenvolvimento - pois promove a ascensão da criança para níveis intelectuais mais elevados. Não seria possível à criança abordar as questões trabalhadas na escola sem uma estrutura mínima já plenamente desenvolvida. Ao chegar à escola, a criança está já na posse de um sistema de conceitos que adquiriu espontaneamente. No entanto, não tem ainda consciência desses conceitos, pois foram adquiridos segundo acções práticas que não isolam e distinguem o agir e o acto mental idealizado pela acção. É aqui que os conceitos científicos se tornam essenciais. Ao ser confrontado com um sistema mais vasto, um sistema de sistemas, com varáveis diversas e diversificadas, a criança toma consciência plena do pólo centralizador que a capacidade de abstracção representa relativamente à mera relação unívoca com a singularidade da acção prática. Por outras palavras, a criança apercebe-se da sua capacidade reflexiva, e simultaneamente que pode organizar o mundo distanciando-se dele, apenas com o poder da sua imaginação - a sua mente pode ser muitas coisas, e todas as coisas podem ser diferentes na sua mente. É um mundo de possibilidades que se abre à sua frente.


publicado por Transbordices às 13:42
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostski - 21

4. A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA PARA O DESENVOLVIMENTO – CONCEITOS CIENTÍFICOS E CONCEITOS ESPONTÂNEOS

 

            Vigostki atribui à escola e à educação uma importância fundamental no desenvolvimento das funções cerebrais superiores. Sendo a interacção humana e sócio-cultural um factor essencial para o desabrochar do intelecto dos jovens em formação, a escola não poderia deixar de ter uma palavra decisiva nesse processo. Na esteira de Piaget, Vigostki traça a distinção entre os conceitos espontâneos e os conceitos científicos – os primeiros derivam da experiência diária do quotidiano, serão portanto formados a partir de uma acção prática activa e liberal - não-dirigida; os segundos serão induzidos, daí baseados num papel mais passivo no processo de aprendizagem. Mas não se entenda esta passividade como um factor negativo, já que o que os alunos aprendem na escola não poderiam aprender por si próprios. É precisamente esta função de superação que transforma o conceito científico num elemento precioso em todo o processo do desenvolvimento. A escola leva à problematização de questões que de outro modo ficariam latentes e adormecidas, por exercitar, arredadas das operações intelectuais das crianças. A escola acelera e optimiza o desenvolvimento intelectual dos jovens por via da indução dos conceitos científicos.



publicado por Transbordices às 21:18
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostski -20

 

(...) O desenvolvimento da capacidade de abstracção ... (continuação)


B. Estágio dos Conceitos Potenciais – Esta fase caracteriza-se pelo critério da unicidade. Enquanto que no estágio anterior o critério de agrupamento se pautava por uma generalidade de atributos preferenciais que tornavam os objectos semelhantes, agora o critério é substituído pelo agrupamento com base num único atributo. Vigostki sugere que este traço característico dos conceitos potenciais (a tendência para a analogia com base em critérios de selecção unitários e singularizados), manifesta-se também nos animais. Este facto poderá ser constatado, por exemplo, nas experiências de Koehler, já que os chimpanzés tendiam a utilizar outros objectos compridos de modo a tentar alcançar as bananas inacessíveis. Esta evidência, denota portanto, uma tendência para a abstracção, já que instintivamente, as operações psíquicas tendem a isolar determinados princípios que não estão ligados a um único objecto – no estádio pré-verbal mais precoce, as crianças esperam nitidamente que situações semelhantes levem a resultados idênticos. Poderíamos ser levados a colocar a seguinte questão – Mas o complexo associativo também não isola os elementos segundo características singulares e tendencialmente abstractas? Vigostski Responde – a diferença reside no facto de nos conceitos potenciais, o critério tender para a solidez, ao contrário do complexo associativo, que como vimos, era volúvel e tendia a alterar-se constantemente – no pensamento por complexos, o traço abstraído é instável, não ocupa uma posição privilegiada e facilmente cede o seu domínio temporário a outros traços. Nos conceitos potenciais surge a tendência para a perenidade e para a solidez, características que visam estabelecer critérios de relação revestidos pela universalidade, indefectíveis.

 

            Segundo Vigostki, as suas investigações têm o condão de provar que a teoria tradicional de desenvolvimento dos conceitos tem lacunas e erros. A formação de conceitos não se baseia na simples interacção das associações, mas mediante uma operação intelectual em que todas as funções mentais elementares participam de uma combinação específica. Essa operação é dirigida pelo uso das palavras para centrar activamente a atenção, abstrair determinados traços, sintetizá-los e simbolizá-los por meio de um signo. Estas operações mentais são primeiramente organizadas através da formação de complexos, aproximando-se posteriormente da abstracção pura por via dos conceitos potenciais. Neste percurso de desenvolvimento, o uso da palavra é fundamental, tal como a interacção com interlocutores que servem de modelo e de núcleo orientador para o sentido e significação, que de outro modo se dispersaria por vias não coincidentes – a palavra conserva a sua função directiva na formação dos conceitos verdadeiros, aos quais esses processos conduzem – não se entenda contudo que a função mediadora da palavra e as relações interpessoais entre interlocutores seja sempre vantajosa para uma criança em formação. Vigostski defende que a mediação desenvolvimentacionista também pode ter consequências negativas e atrofiantes; tudo dependerá dos modelos, dos exemplos, e da moldura humana em que o desenvolvimento ocorre – a interacção da criança com o meio social circundante não conduz necessariamente a uma progressão unidireccional do desenvolvimento cognitivo, podendo mesmo levar a atrasos e regressões. Este não é certamente o caso da escola. O ensino qualificado garante que a zona de desenvolvimento proximal se situe sempre a um nível ideal, levando a criança pelas vias indicadas, de modo a que a sua evolução intelectual se traduza por um empreendimento saudável, digno e profícuo. Casos há que o melhor remédio seria levar os pais das crianças também à escola, em nome do seu equilíbrio – não queremos ver os pobres rebentos serem repreendidos por afinal de contas pensarem bem, e serem obrigados a admitir o ensinamento de quem afinal de contas pensa mal?



publicado por Transbordices às 00:26
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostski -19

3ª Fase - Desenvolvimento da Capacidade de Abstracção – É uma segunda raiz matricial do pensamento conceptual. O pensamento por complexos estabelece elos e relações, dá início à unificação das impressões desordenadas. Mas o conceito requer algo mais do que a união e o estabelecimento de laços relacionais entre elementos – requer acima de tudo abstracção, ou seja, a capacidade de poder invocar elementos para lá dos seus elos associativos factuais. Lembremos as experiências de Koehler - o conceito requer a capacidade para isolar as ideias segundo meios puramente intelectuais, ou seja, independentemente da imagem factual que caracteriza a organização por complexos. É precisamente esta capacidade que a terceira fase do desenvolvimento mental infantil pretende investigar – os primeiros passos em direcção à abstracção.

 

A. Agrupamentos Com o Máximo de Semelhança – De acordo com as observações de Vigostski, o primeiro passo em direcção à abstracção deu-se quando a criança agrupou objectos com um grau máximo de semelhança. Nesta fase, a criança centra a sua atenção em determinados atributos de sua preferência, e tende a isolar todos os objectos que obedeçam a esse critério, embora frequentemente a abstracção de um tal grupo de atributos se baseie apenas numa impressão vaga e geral da semelhança entre os objectos. O princípio de exclusão que leva a cindir o critério de escolha tende para a predominância dos atributos em detrimento das características gerais do objecto – este é um passo decisivo para a ideação, ou seja, para a tomada de consciência da distinção entre o símbolo e o signo, entre a designação do objecto e o objecto propriamente dito, e acima de tudo, para a diferenciação entre o conceito generalizador e o elemento particular que lhe subjaz – entre género e espécie, de acordo com a árvore de Porfírio (a diferença entre animal e gato, geral e particular).



publicado por Transbordices às 02:41
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Julho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
16
17
18

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Frango???

A Volta

O Vidrão

A Culpa?

A convicção

No princípio

Melhor que isto...

...

Será que agora vai?

Cá estamos

Estou Armado ao Pingarelh...

Do Mito à Natureza

A Vontade do Saber

O que é a Ontologia?

...

A Multa

A Marca

O Tempo visto por quem di...

Limites

...

arquivos

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

blogs SAPO
subscrever feeds