Um bocadito para lá das aparências
Terça-feira, 29 de Maio de 2007
Terapeuta

Os psicólogos são a prova viva de que neste mundo é um risco confiar nos outros. E não deixa de ser uma contradição, já que a utopia da amor é um dos grandes catalizadores que nos dá alento e anima a existência. Passamos a vida toda a perseguir o conforto das amizades e depois, quando finalmente pensamos que encontrámos, são essas mesmas amizades que nos atiram para as consultas da terapia. Dizem que os amigos são um ombro onde podemos desabafar as mágoas e que quem os tem se sente mais leve e descomprimido. E depois, quando precisamos de libertar os macaquinhos no sótão, lá vai consulta no terapeuta. O desabafo pago a troco da indiscrição já começa a assumir contornos de instituição. Imagine-se então se não existissem os amigos, ou se os amigos não fossem de confiança...



publicado por Transbordices às 17:56
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Domingo, 27 de Maio de 2007
Transversalidade

“Só me inveja quem bebe água em todas as fontes” - Que ilação se pode extrair desta singela frase, retirada de uma cantiga popular Portuguesa?

Pode-se sempre retirar mais do que uma conclusão a partir de uma frase solta, e é precisamente esse facto que enriquece a frase transcrita e a eleva. Em tudo na vida, ser obtuso, teimoso e obstinado não pode ser bom augúrio. Quantas vezes apenas demonstra falta de horizontes e visão. A capacidade para entender os problemas a partir de pontos de vista diversificados e variados não é comum, mas é francamente positiva. Normalmente tende-ser a segurar as opiniões pessoais como quem defende valores extremos, ou pior ainda, como se fossem verdades absolutas. Estas certezas não passam de acérrimas lacunas ao nível da amplitude de horizontes. Não nos podemos esquecer que para refutar o contraditório temos antes que mais que dominar ambas as faces do problema. E com estas atitudes autistas acabamos por transformar conversas que não passam de uma mera troca de opiniões em debates que mais parece que procuram impor as regras do jogo. Saber distinguir “já eu penso de outra maneira, penso que...”, de “não é não senhor, é assim...” já seria um bom ponto de partida. Esquece-mo-nos muitas vezes que existem argumentos que transcendem a nossa bagagem acumulada. Aliás, a razão até pode nem sequer estar do lado de qualquer dos interlocutores, e nesse caso, o conhecimento não ocupará tanto lugar como o orgulho exacerbado. Este último, retira todo o espaço ao conhecimento...



publicado por Transbordices às 19:17
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2007
Hierarquias

Queixam-se os nossos quadros mais bem qualificados que existe em Portugal o culto da mediocridade. Queixas vindas directamente de um recém doutorado que se viu há pouco a braços com problemas de relacionamento com as hierarquias. Ao que parece, houve por diversas vezes falta de compreensão entre ambas as partes. Por um lado, os superiores hierárquicos não abdicam do seu estatuto, mas por outro, não procuram esclarecer as óbvias lacunas que demonstram nos conhecimentos concretos – e obrigam muitas vezes um empregado em vias de realizar um trabalho inovador e bem delineado, a ter que baixar a fasquia e fazer à maneira de quem manda. Não será este o principal factor que leva os nossos técnicos mais qualificados a procurar trabalho fora do País? É que as actuais tendências de recrutamento nas empresas Portuguesas vão no sentido de descartar os mais aptos, os que têm melhores qualificações académicas e profissionais. É como se o sentido da competitividade se sobrepusesse ao bom rendimento no trabalho, e consequentemente – aos bons resultados. Os empregadores estão assim a promover a hegemonia nas hierarquias de trabalho, ao invés de promover o progresso e a qualidade. Parte-se do princípio que aquilo que não se pode controlar é indesejável. Deste modo torna-se difícil expandir limites.


Sem dúvida que se podemos invocar um atributo que caracterize o povo Português, não podemos deixar de pensar na capacidade que os Portugueses mostram para não deixar fugir o tacho - mesmo às custas de ter sempre papas e couves para a janta. E começa bem cedo o problema, já que as normas da educação em Portugal se pautam demasiadamente pelo - “quem manda aqui sou eu”, quantas vezes a custo da comunicação e do esclarecimento. E pode assim começar bem cedo o atrofio, já que é de pequenino que se torce o pepino. Boa matéria prima penso que não falta – falta é a capacidade para a gerir e formar.



publicado por Transbordices às 01:58
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Terça-feira, 22 de Maio de 2007
Astrologia – A Nova Religião?

Como se implanta uma Religião na fé dos povos? Que mecanismos levam a que a massa humana interiorize os princípios que formam os alicerces de uma crença? Não será verdade que as novas religiões quando surgem se caracterizam pela novidade, e que para lá dos princípios da crença e da fé, poucas semelhanças têm com as religiões em vigor?


E eis que quando se tendia a pensar que o Cristianismo pertencia já ao passado e que a fé já não é o que era, tendo os seus dias contados pelos torniquetes da razão, eis que surge a astrologia numa caminhada desenfreada que tende a conquistar os corações mais desconfiados e pragmáticos.


E aos poucos tem conquistado um lugar de respeito cativo nos círculos sociais, acabando por ditar regras muito próprias. Vemos diariamente figuras públicas embarcar no roda dos signos sem o mínimo pejo ou retraimento. Em certos casos dá muito jeito o preconceito – principalmente quando nos favorece.


Sem dúvida que nascer sob o signo do leão pode trazer grandes vantagens. Os mais entendidos sabem que os leões são pessoas que nasceram para o sucesso, resultando em excelentes lideres e pouco dados engolir sapos vivos. E sem dúvida que crescer embalado por este ritmo acabará por influenciar o próprio e os circundantes, todos sabemos o poder que a educação tem nas nossas atitudes. Quando se fica a saber que é leão, quando essa palavra soa no ar, parece que o tempo se suspende por instantes, que os pontos de apoio tendem a procurar maior firmeza, sente-se o respeito no éter – não pelas acções ou feitos, mas pelo preconceito. Com os leões não se brinca.


Já dizer que se é virgem acarreta de imediato uma certa falta de credibilidade, dificuldades acrescidas na afirmação pessoal, a tendência é pensar de imediato que é uma pêra doce, há pouca ferocidade no nome. Quando a palavra virgem soa no ar sente-se de imediato uma reivindicação pela supremacia, com este posso eu bem...


Já para não falar de certos touros que por aí andam, não são touros são vacas. Nunca vi uma tourada ser feita com uma vaca, mas elas gostam se ser vistas como touros, perigosas, ferozes. É uma boa muleta, excelente fonte de motivação.


A estratificação que decorre da crença na astrologia não é uma fantasia. Influencia a imagem que temos dos outros, para lá do que seria desejável. E porquê? Porque acabamos por julgar os outros não por aquilo que são e fazem mas pelo que pensamos serem as características associadas ao seu signo.


Digam-me lá se isto não assume os contornos de uma Religião? Mudam-se os tempos, mudam-se as características da fé.


Eu cá por mim prefiro a astrologia oriental...



publicado por Transbordices às 01:10
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Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
O Casaco de Peles

Ela entrou, espampanante e artificial. A sua atitude denotava alheamento e desdém face aos demais, como se o mundo girasse em torno do seu umbigo, e nada do que estivesse 10 cm para lá dele lhe interessasse verdadeiramente. A postura típica dos que cultivam a irresponsabilidade, ao confundir o ideal dum hipotético “pensamento positivo”, tão na moda actualmente, com o alheamento face à realidade circundante. Há determinadas situações que não podem ser atiradas para trás das costas, por serem tão delicadas, e aquela senhora mostrava nos seus trejeitos, que por uma questão de comodidade, não teria o mínimo problema em aplicar a técnica do “pensamento positivo” só para não ter que se debruçar duas vezes sobre situações que pudessem afrontar os seus interesses pessoais - e o seu protagonismo.


No entanto, contrastando com o seu autismo, perdia-se em monólogos, dirigindo-se ora a uns, ora a outros, não se importando com os sinais de aparente enfado que a sua postura provocava nas gentes circundantes. Um verdadeiro furacão, digna de baptizar um ciclone. Não gostaria de ter que me debruçar sobre assuntos profundos se para tal precisasse de trocar algumas ideias com aquela senhora. Certamente que daria peixeirada e gritaria - não pela minha falta de paciência ou grosseria, mas pela sua falta de bom senso e poder de análise. Compreender e escutar não podem deixar de ser sinónimos, é um casamento que dá bons resultados.


As suas vestes espelhavam a sua personalidade – plasticidade, superficialidade, fingimento, engodo. Um longo casacão de peles, deixava antever pela altura dos joelhos uma saia que torneava pela barriga das pernas uns sapatos de salto alto com um tacão excessivamente pontiagudo.


E lá continuava ela, com os seus gestos bem medidos e as suas palavras mais entoadas que faladas, mais cantadas que pronunciadas, naquele tom de voz excessivamente elevado, que intimidava pelo seu timbre mais que pelo conteúdo das palavras. Aliás, um vozeirão daqueles, que embalava um chorrilho ininterrupto de palavras pronunciadas em catadupa, seria o suficiente para desconcentrar o mais hábil pensador, cortar pela raíz as veleidades de qualquer interlocutor mais perspicaz.


A atenção da senhora virava-se agora mais para um homenzito que a acompanhava. O Senhor mostrava sinais de atrapalhação, rolando os seus olhitos pequenos fugidiamente pelas pessoas circundantes, receando que alguém lê-se na sua expressão o acabrunhamento que lhe ia no espírito. No entanto, a sua fronte curta e sem cabelos não apresentava sinais de suor. O homem aparentava pouca presença de espírito, conformismo, assumia uma postura ausente, certamente produto de vários anos a lidar com aquela Senhora dominadora e manipuladora. Um pobre fantoche nas suas mãos, domado, conquistado, castrado...


Na realidade, agora que recordo o episódio, não posso deixar de sorrir com o pensamento que me aflora o espírito. Aquele tipo de Senhora faz-se sempre acompanhar por um Senhor que lhe faz de cabide. Um casaco de peles tão fino não pode ficar-se sem um bom cabide. Não é que a base de sustentação do cabide fosse por aí além, como já referi o senhor tinha uma testa curta, agora os suportes em si deveriam ser bem resistentes. Doutra forma, que cabide poderia resistir a um casaco de peles tão vistoso como aquele? Teria certamente que ser um cabide de qualidade.


Consigo também imaginar as constantes ausências da dita Senhora - “visitas à prima”, ou qualquer coisa assim...



publicado por Transbordices às 02:45
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2007
A Bomba
Que melhor maneira para encetar este blog do que invocar o tema da justiça?

Nos tempos que correm tende-se a associar a justiça ao relativismo, ou seja, derrogar nas instituições e no paradigma a formação moral dos indivíduos, desculpando as suas tendências, boas ou más, com factores extrínsecos que anulam a possibilidade para uma essência.

Não me manifesto quando à importância que a responsabilização possa ter para definir quem afinal de contas é boa ou má pessoa, inclino-me antes para uma solução que raia o surreal e o abstracto - possível fosse

Porque não inventam uma bomba selectiva que elimine da face da terra todos os perversos, canalhas e sacanas? Uma bomba que ao detonar emita raios laser alterados para varrer todos os que contribuem conscientemente para tornar o nosso mundo num chiqueiro moral? Deste modo, fazendo detonar periódicamente uma bomba dessas, seria garantida a formação de uma sociedade em que todos contribuiriam para o bem estar geral em consciência e com consciência. E o mais importante - mesmo que eu tivesse a certeza que essa bomba me fosse  levar  também a mim, eu preferia que ela detonasse mesmo assim, pois estaria a contribuir para transformar este mundo num mundo mais decente. Rebenta bomba, mesmo que me leves também a mim...


publicado por Transbordices às 19:59
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