Um bocadito para lá das aparências
Sábado, 2 de Junho de 2007
O Chefe de Família

Na casa dele dá-se uma grande importância aos “bons valores”. Na qualidade de “chefe de família”, considera ser seu dever transmiti-los aos seus rebentos. Por essa razão estabeleceu uma série de regras apertadas que garantem a sua observação. As regras mais apertadas, na sua ordem de valores, consistem na contenção dos horários televisivos, e na controle rígido da utilização do ciber-espaço. Considera de mau gosto e pouco consistentes as mensagens que são transmitidas por esses veículos de comunicação. Televisão, só a horas certas, e com programas previamente escrutinados pelo seu sentido crítico. Internet, só com um controle parental bem configurado no anti-virus. Também os temas das conversas passam pelo seu escrutínio, tal como os horários das refeições, que são invioláveis. Agradece-se à mesa cada refeição a Deus, e todos sabem esperar com resignação a oportunidade legítima para manifestar o pensamento, sem atropelos nem precipitações. A sua vontade tende a imperar quando se trata de tomar decisões, até mesmo as mais insignificantes. Dá-se uma grande importância à elevação, e à “nobreza de alma” naquela casa.

    O seu filho mais velho é dotado de um invulgar sentido de observação, mas sente-se, cada dia que passa, cada vez mais sufocado. Tem os seus interesses pessoais, e não considera as suas pretensões pouco rebuscadas, nem sequer de mau gosto, apenas diferentes. Os antecedentes familiares levam-no a oprimir os seus pontos de vista, e a qualidade da comunicação com o seu pai está em vias de ruptura, embora este aparente não ter consciência do que lhe vai na alma. As suas perspectivas raramente são respeitadas, incompreensivelmente, uma vez que é bem informado, leu com atenção cada uma das dezenas de livros que acomoda na estante, e os resultados na escola mostram que é bem dotado e que não lhe falta presença de espírito. Sobretudo, não entende como pode o Pai nunca perder um jogo de futebol na tv, e ser tão rigoroso nos horários de tv quando se trata de programas que lhe agradam a si. Também não compreende porque razão só há uma televisão em casa, na sala de estar. O seu Pai é um arquitecto de renome, bem conceituado, e dinheiro não é problema naquela casa. Também não compreende em que medida participar em conversas no chat com os amigos possa ser um veículo para a “adulteração moral”.

    Faz três anos que a sua esposa saiu de casa. Não conseguia viver mais tempo assim, subjugada na sua identidade pessoal pela identidade pessoal do marido. Discordava em absoluto da maneira como os seus filhos estavam a ser criados. Era senhora de uma mente aberta e liberal, e considerava que a melhor prática passava por “ajudar a descobrir”, ao contrário de seu marido, que preferia “obrigar a ser”. Considerava que em plena globalização, fechar as portas ao mundo, apenas traduzia uma fobia egocêntrica. Sentia-se ofendida por o marido desconsiderar as suas capacidades de apreciação e ajuizamento. Na verdade, pensava que o que o seu marido não suportava era ser contrariado, que os outros pudessem ter opiniões diferentes das suas, e era por isso que ele fechava as portas ao mundo, com a intenção clara de impedir que ela e os seus filhos formassem as suas próprias convicções.


Chamou-lhe tirano dois dias antes de ter saído de casa.



publicado por Transbordices às 20:38
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