Um bocadito para lá das aparências
Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostski -20

 

(...) O desenvolvimento da capacidade de abstracção ... (continuação)


B. Estágio dos Conceitos Potenciais – Esta fase caracteriza-se pelo critério da unicidade. Enquanto que no estágio anterior o critério de agrupamento se pautava por uma generalidade de atributos preferenciais que tornavam os objectos semelhantes, agora o critério é substituído pelo agrupamento com base num único atributo. Vigostki sugere que este traço característico dos conceitos potenciais (a tendência para a analogia com base em critérios de selecção unitários e singularizados), manifesta-se também nos animais. Este facto poderá ser constatado, por exemplo, nas experiências de Koehler, já que os chimpanzés tendiam a utilizar outros objectos compridos de modo a tentar alcançar as bananas inacessíveis. Esta evidência, denota portanto, uma tendência para a abstracção, já que instintivamente, as operações psíquicas tendem a isolar determinados princípios que não estão ligados a um único objecto – no estádio pré-verbal mais precoce, as crianças esperam nitidamente que situações semelhantes levem a resultados idênticos. Poderíamos ser levados a colocar a seguinte questão – Mas o complexo associativo também não isola os elementos segundo características singulares e tendencialmente abstractas? Vigostski Responde – a diferença reside no facto de nos conceitos potenciais, o critério tender para a solidez, ao contrário do complexo associativo, que como vimos, era volúvel e tendia a alterar-se constantemente – no pensamento por complexos, o traço abstraído é instável, não ocupa uma posição privilegiada e facilmente cede o seu domínio temporário a outros traços. Nos conceitos potenciais surge a tendência para a perenidade e para a solidez, características que visam estabelecer critérios de relação revestidos pela universalidade, indefectíveis.

 

            Segundo Vigostki, as suas investigações têm o condão de provar que a teoria tradicional de desenvolvimento dos conceitos tem lacunas e erros. A formação de conceitos não se baseia na simples interacção das associações, mas mediante uma operação intelectual em que todas as funções mentais elementares participam de uma combinação específica. Essa operação é dirigida pelo uso das palavras para centrar activamente a atenção, abstrair determinados traços, sintetizá-los e simbolizá-los por meio de um signo. Estas operações mentais são primeiramente organizadas através da formação de complexos, aproximando-se posteriormente da abstracção pura por via dos conceitos potenciais. Neste percurso de desenvolvimento, o uso da palavra é fundamental, tal como a interacção com interlocutores que servem de modelo e de núcleo orientador para o sentido e significação, que de outro modo se dispersaria por vias não coincidentes – a palavra conserva a sua função directiva na formação dos conceitos verdadeiros, aos quais esses processos conduzem – não se entenda contudo que a função mediadora da palavra e as relações interpessoais entre interlocutores seja sempre vantajosa para uma criança em formação. Vigostski defende que a mediação desenvolvimentacionista também pode ter consequências negativas e atrofiantes; tudo dependerá dos modelos, dos exemplos, e da moldura humana em que o desenvolvimento ocorre – a interacção da criança com o meio social circundante não conduz necessariamente a uma progressão unidireccional do desenvolvimento cognitivo, podendo mesmo levar a atrasos e regressões. Este não é certamente o caso da escola. O ensino qualificado garante que a zona de desenvolvimento proximal se situe sempre a um nível ideal, levando a criança pelas vias indicadas, de modo a que a sua evolução intelectual se traduza por um empreendimento saudável, digno e profícuo. Casos há que o melhor remédio seria levar os pais das crianças também à escola, em nome do seu equilíbrio – não queremos ver os pobres rebentos serem repreendidos por afinal de contas pensarem bem, e serem obrigados a admitir o ensinamento de quem afinal de contas pensa mal?



publicado por Transbordices às 00:26
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Julho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
16
17
18

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Frango???

A Volta

O Vidrão

A Culpa?

A convicção

No princípio

Melhor que isto...

...

Será que agora vai?

Cá estamos

Estou Armado ao Pingarelh...

Do Mito à Natureza

A Vontade do Saber

O que é a Ontologia?

...

A Multa

A Marca

O Tempo visto por quem di...

Limites

...

arquivos

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

blogs SAPO
subscrever feeds