Um bocadito para lá das aparências
Domingo, 28 de Outubro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostski -18

(...) O Pensamento por complexos (Continuação...)


Mas Vigostki vai ainda mais longe, generalizando o fenómeno da associação por complexos à génese da própria linguagem.

 

            As observações relativas ao fenómeno da participação em povos primitivos (os índios Bororo afirmavam serem papagaios encarnados), levaram à constatação que esse comportamento seria uma simples manifestação do pensamento organizado por complexos, e não uma questão de confusão de identidade, ou qualquer outra desordem funcional. Este caso apenas denota a expressão natural de quem se considera pertencente ao mesmo complexo dos papagaios – tal como se a palavra que designa o elo comum entre os papagaios e eles próprios fosse a mesma, como se não tivessem a capacidade para utilizar a abstracção “animal”, e desse modo, se referissem aos papagaios e a eles próprios como a mesma coisa (onde o factor agrupador não poderia deixar de passar pela capacidade da fala). Uma capacidade de generalização que denota carências ao nível da abstracção e de um atributo generalizador isolado das relações factuais concretas – Os povos primitivos também pensam por complexos e, consequentemente, em suas línguas a palavra não funciona como o portador de um conceito, mas como um ‘nome de família’ para grupos de objectos concretos, associados não logicamente, mas factualmente. Mas também na própria génese da linguagem podemos encontrar claramente o traço da organização por complexos…

 

            A história da linguagem mostra claramente que o pensamento por complexos, com todas as suas peculiaridades, é o fundamento real do desenvolvimento linguístico. Senão veja-se:

            - A palavra Russa para dia e noite (sutki), inicialmente significava costura, algo entretecido. Depois passou a designar qualquer tipo de junção. Evoluiria para crepúsculo, e finalmente para dia e noite – ou seja, o período entre um crepúsculo e outro. A origem desta evolução, que muitas vezes faz perder o significado original das palavras nos confins do tempo, só se pode justificar mediante a associação por complexos. Quando assume o estatuto de conceito, a relação entre a palavra e o motivo que a originou mitiga-se – Na luta entre o conceito e a imagem que deu origem ao nome, a imagem gradualmente desaparece; desaparece da consciência e da memória, e o significado original da palavra é finalmente obliterado. Este é um processo que se mantém actual, contemporâneo - é a matriz e a génese constante das palavras do vocabulário. Senão repare-se – “Perna da mesa”; “Cotovelo de uma estrada”; “Pescoço de uma garrafa” – não são exemplos que ilustram na perfeição a tese de Vigotski? – Sem dúvida que o processo de formação da linguagem é análogo ao processo de formação dos complexos no desenvolvimento intelectual da criança.



publicado por Transbordices às 20:12
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