Um bocadito para lá das aparências
Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007
O Desenvolvimento Cognitivo Segundo Vigostki - 17

(...) Pensamento por Complexos (continuação...)


E. Complexo de Organização por Pseudo-Conceitos – A ponte para o estágio mais desenvolvido do pensamento humano. Os investigadores, no decurso das suas observações, até poderiam ter sido levados a pensar que, a criança ao reunir todos os triângulos existentes no universo experimental, estaria a pensar já conceptualmente. Na realidade, esse feito baseia-se ainda em meras conexões factuais – existe portanto uma diferença entre o pseudo-conceito e o conceito propriamente dito. É precisamente derivada desta semelhança, que segundo Vigostski, se terá tradicionalmente tendido para uma pretensa potencialidade pré-estabelecida (intencionalista), que descura o desenvolvimento por estágios e etapas em prol de um estruturalismo pronto a dar de si – como se a criança fosse um adulto em miniatura, já com todas as suas estruturas cognitivas prontas a apreender conceitos, à semelhança de um adulto já com todas as estruturas de entendimento complexo formadas. Sem dúvida que as palavras usadas por um adulto e por uma criança coincidem, já que ambos se entendem e comunicam, No entanto, isso não significa que a criança esteja a raciocinar segundo uma lógica puramente conceptual, já que as estruturas de formação de uns e outros são completamente diferentes. Mais ainda:

- Não fora o facto de existir comunicação entre o adulto e a criança, e o seu esquema de organização por complexos seguiria um rumo completamente diferente, levando a sentidos radicalmente diversos e tornando o entendimento uma impossibilidade prática, cada um de nós vivendo no puro solipsismo. Na realidade, o papel do adulto ao comunicar com a criança, representa comparativamente às experiências realizadas, o núcleo à volta do qual a criança desenvolve a organização dos dados que vai agrupando. É por esta razão que a criança desenvolve significações de sentido análogas às dos adultos, seus modelos – na realidade não está a pensar segundo um esquema conceptual, mas recorrendo a uma organização de elementos segundo complexos. Neste ponto destaca-se a especificidade da teoria do desenvolvimento de Vigostki, que dá à comunicação e aos contornos sócio-culturais a primazia no processo de formação do pensamento conceptual. A criança desenvolve-se porque se relaciona com outros seres humanos que lhe abrem perspectivas para o sentido, ao contrário das teorias de Piaget, por exemplo, que radicam na subjectividade individual a força motriz da cognição, com estruturas que se manifestam independentemente dos estímulos concretos da interacção (como não será demais tornar a salientar). O contacto com os adultos, ou seja, o factor comunicacional, revela-se factor predominante na concepção Vigostkiana do desenvolvimento cognitivo. Neste processo, a palavra e a aprendizagem da linguagem será tudo menos irrelevante. A criança chega ao pensamento conceptual porque evolui através da aquisição das competências de organização e generalização que a aprendizagem da linguagem lhe proporciona. Deste modo, não será demais salientar que os horizontes intelectuais (e emotivos) do futuro adulto serão de certo modo condicionados pelo ambiente em que a criança aprende a comunicar. Não será apenas uma questão de saber as palavras, mas acima de tudo, o “para quê” das palavras que determinará, desde muito cedo, a amplitude do horizonte intelectual e emocional do futuro adulto. Veja-se como esta fase de amadurecimento se poderá revelar tanto um factor de expansão como um factor de atrofiamento. Na realidade dificilmente se poderá confeccionar uma omelete sem ovos, mas por outro lado, não será muito difícil deixar queimar os ovos e estragar a omelete. O resto ficará ao critério de cada um, e não será pouco...



publicado por Transbordices às 19:32
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